terça-feira, 17 de abril de 2012

Aníbal

Aníbal era um senhor de 50 anos que, recém aposentado, viu uma oportunidade de voltar aos estudos. Depois de 3 meses do merecido ócio domiciliar, matriculou-se em um curso de história, matriculou-se porque não aguentava mais descascar o alho e enxugar a louça em casa e história porque desde garoto sempre fora um assunto de seu interesse.
Foi da Babilônia até George Bush e dos Pré-colombianos até Lula e do ócio à formatura, sem grandes surpresas. Pela seriedade nos estudos e competência na elocução, foi nomeado orador da turma. Seu discurso foi conciso, bonito e hermético. Não levantou a platéia em longas "olas" de emoção, mas honrou os professores, agradeceu os companheiros e passou a mensagem da sua missão dali em frente, o magistério.
Resolveu dar aulas mais perto de sua casa de classe média no colégio público onde vinham estudar crianças de várias cidades satélites vizinhas, de classe não tão média assim.
Ele, sem filhos, aprendeu a lidar com as "crianças" de oitavo e nono ano na marra. Gritou, brigou, expulsou de sala, mas se abrandou. E deixou-se levar. E aí não gritou mais, não brigou mais, não expulsou mais de sala, mas começou a levar para as aulas a estória dentro da história, despertando nos jovens o que havia de mais surreal naquilo que deveria ser apenas os fatos. Não gritou mais porque não precisou, pelo contrário, falava baixinho para fazer suspense quando conspirações rondavam os reinados. Não brigou mais, pelo contrário, os alunos brigavam com ele por terminar a aula. Não expulsou mais de sala e ainda deixou alguns outros alunos a mais entrar, aqueles que fugiam de outras aulas ou dela eram expulsos.
Aos 73 anos, o professor teve um derrame e por pouco não morreu, mas teve que ficar em repouso por 3 meses. Os alunos, com a professora substituta, montaram uma peça teatral sobre a revolução francesa, em apresentação única e exclusiva no quintal da casa do Professor Aníbal que limitou-se a corrigir algumas incongruências históricas, muito mais pra esconder a lágrima que descia de seu olho do que pelo rigor histórico em si.
Ainda nesse ano, foi às ruas reivindicar melhores salários, mas ainda mais que isso, melhores condições de aula para alunos e professores. Nenhum acordo foi feito. Mas também, o governador não tivera aula com o Professor Aníbal! Não tinha como saber o histórico de lutas que aconteceram pra que hoje os professores pudessem reivindicar e pra que ele, governador, pudesse lá estar. Ele não tinha visto a peça dos alunos no quintal da casa do Professor Aníbal em apresentação única e exclusiva. Paciência.
E Professor Aníbal teve paciência quando, aos 81 anos, um ano depois de se aposentar do magistério, o câncer lhe foi diagnosticado em fase terminal. Até o fim teve paciência, a companhia da mulher e de César Augusto, o médico, ou melhor, o Grande Imperador, como o chamava o professor em suas aulas de história de Roma, 20 anos atrás.
Em uma terça-feira de abril Aníbal morreu e nesse dia não houve aula na escola. Nem vagas suficientes no estacionamento do cemitério.
Aníbal morrera, Professor Aníbal não.